quarta-feira, 8 de setembro de 2010

CAMINHANTE...

...EM VERDADE...EM VERDADE VOS DIGO...



AINDA CHUTO TAMPINHAS NA MADRUGADA...




OPUS 9
CAMINHANTE...


Dali podia observar tudo e todos... O morro, a campina, o rio, os campos e os animais. A sua realidade se afastando rumo ao horizonte.
        Olhando para trás via o quanto fora “sábio” na “burrice” de sua infância, quando sabia-se um observador do infinito, vendo o tempo, bebendo uma taça de vento... ouvindo o doce murmurar dos finais de tarde – velhas vozes no seus esquecimento.
Ainda ontem – assim lhe parece – fora para a cidade, maravilhosa, em busca de um sonho... Bobagens, balelas! Seu sonho sempre estivera ali, onde dormia o seu coração e suas lembranças.
Ao pé do morro morava sua história, sua mãe – ninguém podia ser maior e nem melhor – era a melhor mãe do mundo!
Seu pai, desfrutava do descanso eterno, a muito... 
- Ah, homem, foste muito inteligente partindo...
- Sim, muito!... afirmava e se respondia. Não se iludia, havia perdido o trem da história... Sim, fora buscar o que já tinha e não tinha percebido...

OPUS 10
CAMINHANTE...


A porta sólida, guardava almas.
Naquele depósito de almas, os dias corriam alegremente, do lado de fora...
Aquela velha alma alquebrada, carregava o peso dos anos – nunca conseguira sair dali.
Vida gerando morte. Muitos dos seus já partiram para a longa jornada – caminho sem volta...
Janelas enegrecidas da fuligem do tempo, dos anos que nela escorreram, carcomidas da idade.
Nos velhos olhos, a alegria sorria a tristeza.
Talvez amanhã fosse o último dia – último alento. Até então, só a espera advém da velhice...E velhas fotografias que contariam a história.
Pelas frestas da madeira, espera no triste esperar...nem ontem, nem amanhã; só o agora...

OPUS 11
CAMINHANTE...
http://www.ocoruja.com/who/image/coruja-do-celeiro.jpg
Aquele homem era uma coruja. Se movia como um ser noturno e misterioso. Seu olhar parecia trazer toda a sabedoria do universo, e embora bebesse cada copo de cerveja como se fosse um bêbado, não tinha traços e trejeitos de o ser.
Naquela época, a cidade-luz era ainda um pequeno aglomerado humano, desordenado e caótico.
Becos pareciam cochichar velhos segredos quando sentiam a ausência humana.
Lua presente
Lua distante
Lua doce...
- Mistérios nos fins...
Sempre ouvia-se estranha cantiga, soando pelas paredes como se viesse de lugar algum e de todo lugar.
Som de vândalos... e alguém saia voando porta a fora. Vez ou outra podia se ouvir o berro doloroso das madrugadas parisienses.
Aquele homem, parado na porta, observando existências e almas, me remetia a um passado desconfiado e desconhecido – distante, como se lá tivesse vivido...

OPUS 12
         CAMINHANTE...


Na planície sopra a brisa leve e quente
O ar modorrento do Sol a pino, acentua o silêncio...
Rostos duros e tensos, emoldurados pelos elmos vistosos,
Se encaram...
Guerreiros em suas armaduras douradas
Rebilhando ao Sol...
Previsão de sangue e suor...
Lágrimas rebrilhando na claridade...

Catapultas, bigas, arqueiros, lanceiros – folgosos corcéis!
O brilho do dia na ponta dos pilos, antevê a carnificina...
Centuriões à frente de suas centurias, aguardam a ordem de ataque...
Troar de cascos, som de pés ensadalhados batendo o empoeirado chão...
Enfim a morte se torna a regente da sinfonia de gritos e do clangor de espadas.
O choque de escudos, de gritos e de quedas de corpos
A eternidade observando o caos humano...
Enfim o silêncio impera...

E...
Entre corpos, restos e gemidos:
- AVE CÉSAR!


OPUS 13
CAMINHANTE...


HISTÓRIAS DE FIM DE TARDE...

Uma vez, o Sol veio bater à porta do dia, indagando sobre misteriosa história de homem\mulher – seres sentimentos.
Foi então convocado pelo dia, o vento – arauto de alvíssaras e maldizeres.
O mensageiro eterno soprou mundo a fora, questionando rios, árvores,
animais, montanhas – a tudo interrogando em busca de confirmação.
        Buscou também junto ao mestre tempo, a resposta para a indagação do astro-rei.
        Passaram se os dias, sem que o vento aparecesse...
        Num fim de tarde, o vento voltou, acariciou as curvas do mundo e sussurrou a verdade da história a ouvidos ansiosos e atentos...
        O Sol sorriu, e ficou observando o vento acompanhar as pegadas impressas na areia molhada...
A figura da impossibilidade caminhou junto, rumo ao translúcido horizonte verde líquido, também sem olhar para trás, voltando melancolicamente às costas ao Sol que se punha ainda sorrindo.
        Ainda hoje, o vento sussura a ouvidos – as vezes atentos, outras nem tanto, nos finais de tarde, a história... então abraça o mundo e manda um grande beijo ao unvierso.
        Em algum lugar do horizonte, em meio a sua translucidez verde líquida, alguém sabe em silêncio, o porque do sorriso do Sol e da traquinagem do vento.
Era uma vez...

OPUS 14
CAMINHANTE...
 

        Esse realmente não era um dia comum. Embora as coisa parecessem estar como sempre, tudo vibrava em uma sintonia belamente desarmonica.
        Podia se perceber na claridade do dia, um estranho brilho; como se ali tudo fosse diferente, uma coisa nova – expressa na sutileza que só mesmo os mais dóceis e serenos poderiam perceber. Eu, como não podia saber, apenas pressentia.
        De um pequeno vão encravado no muro em frente, surgiu uma pequena cabeça dourada, algo assim como uma espiga de milho nova a brihar em um dia ensolarado. Caminhava  como se fosse ali, o maior e mais completo dos reinos.
        Permaneci a observá-lo. De onde me encontravam, aparentemente, não podia ser visto ou mesmo percebido.
        A pequena figura olhou atentamente para os lados, parecendo procurar uma direção a seguir. Lentamente, sem siquer voltar a cabeça, me indagou em tom cerimonioso e humilde:
        - Caro senhor, poderia me indicar qual a direção a seguir...
e continou... A melhor... Não a mais prática, tampouco a mais distantes ou próxima, apenas a melhor!
        Espantei-me com a indagação, pois até então me via como um observador discreto e imperceptível. E meio relutante lhe respondi, também indagando:
        - Qual melhor, a minha ou a sua...
        Ele com um sorriso indefinível no canto da boca, me olhou atentamente por entre a folhagem que nos separava e disse:
        - Me satisfarei com aquela que for de sua preferência!
        Observei-o ali, parado, ensimesmado com sua própria afirmação... Olhava-me como quem procura descobrir uma saída onde, aparentemente não existe; com aquele brilho tão peculiar a correr-lhes nos olhos.
        Aprumei-me e respondi-lhe, com convicção (nesse momento já plenamente exposto também a luminosidade do dia):
        - A melhor direção é aquela que nos leve ao que pretendemos e que em nos produza bons frutos!
        Ele semicerrou os olhos enquanto ajeitava sua casaca que parecia mudar de cor a cada sutil movimento de suas mãos. Então, tão subitamente quanto havia surgido, desapareceu por entre a folhagem e sumiu pela pequena fresta no muro. Ainda puder ver sua dourada cabeleira refletir a luz do Sol antes de desaparecer por completo.
Aquela sensação de coisa inefável permanecia comigo. 
Parecia que aindarestava uma sutil indefinição no ar... 
Um aroma desconhecido, e ao mesmo tempo, de intimidade

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